Cracolândia, Fábio Assunção e a falta de empatia com o dependente químico

Dos grupos de usuários de droga na Cracolândia de São Paulo ao ator que aparece entre os mais vistos essa semana no Youtube, uma coisa se mostra claramente: a falta de empatia com o dependente químico. A despeito de todos os estudos que demonstram que a dependência química é um problema multifacetado, com aspectos biológicos, psicológicos e sociais, ainda assim, o grosso da sociedade lida com o problema como se fosse uma falha moral, um acontecimento presente apenas na vida de pessoas com caráter questionável.

Há algumas semanas, a prefeitura de São Paulo empreendeu uma ação de “limpeza” na Cracolândia, empenhando um conjunto de ações onde também era prevista a internação compulsória dos dependentes químicos. Assim, julgados em lote, como se o uso de drogas tornasse todos iguais ou semelhante a uma espécie de animal que deveria ser mudado de habitat, a internação nesses moldes não serviria a outro propósito que não o de “higienizar” a cidade.

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A lei prevê a internação involuntária quando o paciente não é capaz de responder por si ou coloca em risco terceiros ou sua própria vida. A internação involuntária visa o cuidado e a proteção do paciente, não retirar ele da vista de outras pessoas. A internação compulsória se dá a mando de um juiz, quando o mesmo, ao julgar que esta é necessária para evitar novos conflitos com a lei solicita a perícia de um psiquiatra qualificado. Nem a internação involuntária, nem a compulsória, podem ser feitas indiscriminadamente tendo como único fator determinante o uso de drogas.

O caso da Cracolândia exige uma análise profunda. Entretanto, basta tocar no assunto com algumas pessoas que logo as respostas de praxe começarão a aparecer: “tem que prender”, “tem que matar”, “tem que internar à força”, etc… Um problema de saúde passa a ser discutido de forma bastante simplista como um problema de segurança. Essa “conversa de bar” sobre a dependência química só evidencia o que existe no imaginário da nossa sociedade a respeito do usuário de drogas. Mesmo aqueles que fazem uso recreativo das mesmas, do café à cocaína, tem internalizada a crença de que o dependente químico é alguém fraco e de má índole. Embora as questões sociais sejam de extrema relevância ao se pensar a toxicomania, a falta de empatia está presente também quando um ator, cantor ou personalidade pública aparece sob efeito de alguma substância. Muitas questões são levantadas, mas a temática principal é o julgamento moral e o questionamento sobre o caráter da pessoa, como se o usuário fosse alguém inferior, como se os erros dele fossem erros exclusivamente de usuários e não erros aos quais todos estamos sujeitos.

Não importa que a psicologia e a neurociência digam que os mecanismos que nos mantém presos ao celular sejam os mesmos que nos mantém presos ao uso de drogas, ainda separaremos “eles” de “nós” e isso facilita a desumanização da pessoa. Dá a falsa sensação de que nós, com nossas famílias, empregos e saúde, somos imunes às armadilhas que o uso de drogas cria.

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O problema das drogas se distancia cada vez mais da solução quando o encaramos de forma crítica e rasa. A despeito do que as soluções mágicas sugerem, o caminho da mudança está mais perto das práticas de cuidado, atenção e amor do que de medidas truculentas e total falta de empatia.

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2 comentários sobre “Cracolândia, Fábio Assunção e a falta de empatia com o dependente químico

  1. Vai até a Cracolândia pega um noia abraça beija alimenta e leva pra casa junto com a sua família???!!!
    Até vc ser capaz disso, esse POST não significa nada
    Eu duvido que o editor e Todos envolvidos nessa “demagogia galopante” , alguma vez fez oque é colocado em pauta.

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    • Olá Marcos!
      Ficamos agradecidos por expressar suas opiniões. Imaginamos que você esteja intrigado com uma solução para as cracolândias, os famosos redutos de uso de crack na cidade, e para alguns problemas sociais relacionados a ela como o aumento da criminalidade na região, redução ou desestímulo ao comércio, depreciação dos imóveis próximos, entre outras coisas… De fato, temos que elaborar estratégias para lidar com estes ambientes e as consequências sociais geradas para as pessoas participantes dele e no seu entorno.

      Nosso texto, no entanto, referiu-se a nossa capacidade de ser empático com o dependente químico. Ser empático com o dependente não significa aceitar seus comportamentos e por consequência trazê-lo para dentro de casa, se expondo aos riscos que a sua dificuldade de controle de impulsos (dependendo da gravidade da dependência e de eventuais comorbidades psiquiátricas) possa oferecer a nós ou nossa família. Ser empático com o usuário de drogas envolve primeiramente compreender as razões do seu uso de drogas!

      Convido você a algo bem mais simples do que nos propôs… a um desafio que, de certo, nós já encaramos… Trocar no mínimo 1 hora de conversa com um usuário de substâncias morador de rua. Nessa conversa tente não emitir julgamentos, taxando como certo ou errado o comportamento dele. Ao invés disso, pergunte por que ele mora na rua ou na cracolândia, o que trouxe ele para ali, se ele gosta ou não, por que se mantém naquela situação, se gostaria de parar de usar drogas, se vê algum lado positivo ou negativo no uso, se já tentou alguma vez parar e se não conseguiu por que não. Isso pode ser um caminho para desenvolver empatia, Marcos. Tentar compreender antes de julgar. Talvez assim, compreenda a complexidade de ações que envolvem recuperar um dependente químico e morador de rua.

      Caso exista medo em se aproximar de um “nóia” (como você mesmo disse), um medo que dificulte essa escuta (como dificulta a várias pessoas), assista o episódio produzido pelo extinto programa de televisão “A Liga”: https://www.youtube.com/watch?v=0etR4tnZ8Ao

      No mais, esperamos ter contribuído um pouco mais para esta reflexão.
      Grande abraço,
      Equipe Rota Alternativa

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