“Perdido por um, perdido por mil”: lapsos e recaídas na dependência química

Em todo processo de aprendizagem existe o erro. Temos inclusive o hábito de dizer “é errando que se aprende”.  O processo de parar de beber ou interromper o uso de outras drogas não funciona de modo diferente.  Mas o erro em um processo de manutenção da abstinência tem implicações no curso do tratamento.

Há casos em que a pessoa encontra-se motivada, amparada, em tratamento e ainda assim chega a fazer uso da substância que tantos problemas lhe trouxe. As pessoas que convivem com o usuário podem se sentir traídas, sentir que não tem mais jeito, ou podem até mesmo duvidar que haja um desejo de se livrar do vício.

Primeiro, vamos esclarecer alguns pontos. Há diferença entre lapso e recaída.

O lapso pode ser entendido como um erro. Um uso único da substância, ainda não no mesmo padrão de consumo que antes. A recaída, por outro lado, é um retorno ao mesmo padrão de uso anterior à interrupção. O lapso pode ser o equivalente a um tropeço que interrompe a caminhada, contudo, não anula todo o caminho já percorrido.  Esse erro, o lapso, pode servir para que se aprenda sobre o próprio processo de dependência. Ele pode representar uma ‘queda para frente’. Ou seja, ainda que gere sentimentos negativos no usuário, o lapso pode servir como oportunidade de compreensão de riscos desconhecidos e da necessidade de mudança em outras áreas da vida e do comportamento do indivíduo, aspectos importantes para o sucesso ou não do tratamento.

O que pode ocorrer após um lapso?

Resumidamente, duas coisas podem acontecer após um lapso:

  1. A pessoa usa, sente-se fraca, culpada, questiona sua força de vontade e pode concluir que não tem forças para enfrentar o vício. Esses sentimentos podem resultar na desistência do tratamento e em conclusões do tipo “perdido por um, perdido por mil” e nesse processo “chutar o pau da barraca”. O que era até então um lapso, volta a ocorrer até se estabelecer a recaída.

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  1. A pessoa faz uso da substância e, embora se sinta decepcionada e abatida, ela pede ajuda e reforça seu comprometimento com o tratamento, observando o que ocorreu e agindo no sentido de corrigir possíveis erros.

Cabe lembrar que um retorno aos padrões anteriores de uso (recaída) não ocorre de uma vez. A ocorrência de um lapso, se não problematizada, pode voltar a ocorrer com uma frequência maior e se tornar uma recaída. Compreender os fatores que favoreceram o lapso é necessário para evitar que, por vergonha ou dificuldade de se expressar, o indivíduo conclua que não há o que fazer e esconda o uso dos outros e de si próprio. Ou ainda pior, entre um lapso e outro, acredite que readquiriu controle sobre o uso.

É importante lembrar que houve todo um processo de aprendizagem implícita até que o padrão da dependência se estabelecesse, e se tratar é, em grande parte, reaprender a viver sem a droga.

Abaixo, segue um poema sobre nossos processos de aprendizagem:

Autobiografia em 5 capítulos

Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio…
Estou perdido… Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio… É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

Ando por outra rua.

Sogyal Rinpoche

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