E quando ele não quer se tratar?

Rota Alternativa - Tratamento Álcool e Drogas

No tratamento de problemas relacionados a álcool e drogas é bastante comum que familiares e pessoas mais próximas se incomodem com o comportamento do usuário antes que ele mesmo. As queixas são diversas e variam de acordo com os efeitos da substância sobre a pessoa e o padrão de uso da mesma.

Dizemos que quando a pessoa faz uso problemático de alguma substância e não percebe prejuízos ou não deseja mudar seu comportamento ela encontra-se em uma fase do processo de mudança chamada de pré-contemplação. É característico desta fase a pessoa não perceber prejuízos próprios ao uso da substância, relacioná-los a outros fatores diferentes do uso ou, mesmo percebendo-os, não desejar mudar em razão daquilo que lhe atrai na droga, seja ela lícita ou ilícita.

Rehab - Amy Whinehouse

Nesta fase, é muito comum o familiar ou as pessoas próximas envolvidas pensarem não ser possível fazer nada a respeito do usuário: “ele precisa querer se tratar, senão não tem o que eu possa fazer”. Embora o desejo de mudança ser algo realmente importante para que se processe um tratamento – para que se caminhe para uma redução ou abstinência –, não fazer nada e esperar que ele ocorra pode não ser a melhor escolha.

“Desejar mudar” é, em parte, resultado de acontecimentos negativos prévios, predição de acontecimentos ruins futuros, além de conhecimento ou sensibilidade aos reveses da realidade atual. Um exemplo: Antônio fuma maconha diariamente, mas seus pais não veem problema quanto a isso e não o repreendem nem aconselham qualquer mudança – pensam que usar drogas faz parte da adolescência e que isso passa assim como passou para o pai de Antônio; mantém-se pagando todas despesas convencionais ou extras de Antônio, inclusive fornecendo-lhe dinheiro para comprar droga entre outras coisas; não se preocupam com as notas de Antônio na faculdade ou não se importam com a reprovação em algumas disciplinas por ausência às aulas ou falta de estudo – estão sempre muito preocupados e ocupados com sua própria vida profissional; os colegas de Antônio o tratam melhor pelo fato dele fumar com eles e ser conhecedor dos tipos diferentes de maconha e dos melhores fornecedores; suas namoradas também fumam de vez em quando, o que por vezes apimenta suas relações sexuais. Lido isso, qual seria a motivação de Antônio para parar de usar drogas? Bem pequena, não é?!

Mas a boa notícia é que existe o que a gente possa fazer em relação ao ambiente social desta pessoa para tornar mais provável a procura por um tratamento, assim como o que fazer pela pessoa em pré-contemplação durante um atendimento profissional. Aí vão algumas dicas que podem ajudar!

5 dicas para quando ele não quer se tratar

1) Informe-se sobre o abuso e a dependência de álcool e drogas: o abuso de substâncias não deve ser compreendido como um desvio de caráter, fraqueza moral ou crueldade. Trata-se de um transtorno e padrão comportamental complexo, multideterminado, cuja característica central é a perda ou o prejuízo do controle sobre o consumo da substância, a despeito das consequências nocivas para si e para terceiros.

2) Diga abertamente sobre sua preocupação ou sobre o impacto do uso de substâncias em você. Você será mais efetivo se observar algumas regras de comunicação:

  • Ser breve: sermões são absolutamente improdutivos. Procure ser direto e objetivo em sua fala.
  • Dizer sempre da sua perspectiva: procure utilizar sempre “eu” em suas expressões, como “Eu sinto falta de você quando vamos juntos a uma festa e você fica mais entre seus amigos bebendo”; “Eu me preocupo com você estar assumindo dívidas e se arriscar com pessoas perigosas”; “Eu me preocupo com você não voltar para casa”; “Eu me preocupo com sua saúde e em poder viver e aproveitar mais dos seus anos de vida comigo”; “Eu gostaria de voltar a sair com você simplesmente para passear e conversar sem correr o risco de você sumir”.
  • Ser específico e evitar generalizações: procure dizer sobre atitudes específicas. Uma atitude específica é aquela que ocorreu no dia X, na data tal e no horário Y.
  • Falar dos seus sentimentos sem aumentá-los ou diminuí-los: exagerar determinados sentimentos para forçar o outro a uma mudança pode ser facilmente detectado pela outra parte e sua mensagem ser ignorada por completo. Além disso, procure não diminuir seus sentimentos por pena ou dó da outra pessoa. O que você sente como consequência do comportamento de abuso de substâncias pode ser bastante justo.
  • Não julgar: julgamos quando transformamos situações em características da outra pessoa. Expressões como “você é egoísta”, “só pensa em você mesmo”, “quer viver às custas dos outros”, “irresponsável”, podem criar mais resistência que ajudar o outro a reconhecer prejuízos e mudar.
  • Ofereça ajuda
Uma alusão a como a família ou pessoas próximas podem ignorar ou tratar o problema como se ele não existisse

[The elefant in the living room] Uma alusão a como as pessoas próximas podem ignorar ou tratar o problema como se ele não existisse

3) Não diminua ou atenue as consequências naturais do comportamento da pessoa: muitas famílias inadvertidamente poupam seus membros de lidar com as consequências de seus excessos, procurando evitar constrangimentos para ela em seu meio social, permitindo concessões de privilégios ou redução de responsabilidades no ambiente familiar ou profissional, entre outras coisas. Embora a intenção seja boa, a tentativa de proteger a pessoa de eventuais reveses pode retardar a percepção dos prejuízos próprios do consumo da substância e a responsabilização pelos mesmos. Normalmente, é importante rever e descontruir fantasias de ser culpado pelo estado do usuário ou a de ser responsável pelo cuidado dele e por suas atitudes, o que normalmente deflagra atitudes improdutivas dos familiares e pessoas próximas para o engajamento e o sucesso do tratamento.

4) Certifique-se que o tratamento estará prontamente disponível quando a pessoa tomar a decisão de se tratar: contate um profissional antecipadamente para compreender sua forma de trabalho e viabilizar as condições para um tratamento futuro. O tratamento deve estar prontamente disponível em razão da provável ambivalência do usuário em relação a aceitar ajuda. O profissional, em um ambiente isento de julgamentos, deverá saber adaptar estratégias para abordar o paciente em relação à fase do processo de mudança em que ele se encontra, bem como avaliar a recomendação ou não de tratamento mais intensivo.

5) O tratamento não precisa ser voluntário para ser efetivo: este é um dos 13 princípios do tratamento de dependência química postulados pelo NIDA (National Insitute on Drug Abuse). Em situações extremas, já mencionadas em posts anteriores nossos, a internação pode ser uma alternativa para a proteção à vida do indivíduo. É importante, no entanto, certificar-se da qualidade do tratamento empregado pelo local de internação. Lembre-se que internações involuntárias somente podem ser realizadas por clínicas, com a presença de médico psiquiatra para a avaliação e acompanhamento do caso, e nunca em comunidades terapêuticas.

Rota Alternativa - quando não quer se tratar

Sabemos que agir segundo estas dicas exige uma mudança de comportamento da pessoa envolvida com o usuário, o que nem sempre é algo fácil e natural. Esta pessoa, igualmente, pode se beneficiar de acompanhamento com um profissional especializado, além do apoio e compartilhamento de experiências com outras pessoas que passam por problemas semelhantes em grupos de apoio como AL-Anom e Amor Exigente.

Se restaram dúvidas ou sugestões, poste-as nos comentários.

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Um comentário sobre “E quando ele não quer se tratar?

  1. César,

    Seu site está ótimo! Tô há mais de hora lendo. De um link vou para outro.
    Beijos e parabéns a vcs 3 responsáveis pelo site!!! 👏 👏 👏 👏 👏 👏 👏

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